Mais que mil

Podia terminar aquilo que comecei – os posts rascunhados, por exemplo.

Podia falar sobre o monólogo dos loucos de Nova York, uma lição de solidão e de medo.
Da falta que vai fazer o cheiro de pão e de neve.

Essa espera.
A grande espera pelo sol, e de tudo que ele representa.

Falo então de árvores, mais do que de arranha-céus. Dos milhares de árvores e jardins e pessoas aguardando a primavera. Dos brotos tímidos e ressequidos ainda, a longa espera pela primeira chuva gentil da estação (a de hoje, meio morna e contínua), e o ar que se prepara para ficar carregado de pólen e cheiro de flor.

Falo de gente que está, agora, a guardar e a esquecer os casacos no armário de cima. E eu, voltando.

Volto, mas Nova York vem comigo.

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A melhor feirinha de NY pode acabar

A prefeitura de Nova York quer derrubar o prédio histórico do Fulton Fish Market, o mercado central de peixes no sul de Manhattan, na área conhecida como Píer 17. Os dois edifícios estão abandonados desde 2005, por ordem da própria prefeitura, que está ensaiando uma reocupação urbana da área pós- 11 de setembro. Como eles só sabem gentrificar, moveram os antigos vendedores de peixes para o Bronx, deixaram a zona portuária às mínguas e agora, finalmente, vendo dinheiro grande entrar de sola, parecem estar a um passo de aceitar o plano diretor da Howard Hughes Corporation. O antigo mercado e outros prédios públicos podem virar pó na construção de um futuro shopping center e museu – não se sabe do quê, para quem, o que haverá lá dentro. Legal.

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Só não é mais legal porque a ‘iniciativa privada coletiva’, o povão,  já havia ocupado a área pública com um projeto ainda mais interessante, pleno de sentido, tanto pela história de Nova York quanto pelo momento que a cidade vive hoje.

Em 2005, Robert LaValva, planejador urbano de New Jersey que passou parte da adolescência em Roma, resolveu ocupar o espaço com comida. Inspirado pelo London’s Borough Market, que reavivou recentemente a parte sul do Tâmisa, convocou agricultores, artesãos, micro-empresários e cozinheiros de Nova York para estarem ali aos domingos. No New Amsterdam Market a gente encontra frutas e verduras frescas, sidra feita a menos de 100 quilômetros de Manhattan, carnes, frango orgânico, peixes nativos de Rhode Island, vinho de Long Island, queijos, pães, embutidos. LaValva fez tudo isso sem apoio municipal, só com a simpatia dos poucos moradores locais, turistas, chefs e uma licença temporária de funcionamento. O New Amsterdam Market foi a primeira feira que visitei em Nova York, em setembro.

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As barracas ficam instaladas debaixo de um elevado, de frente ao centenário complexo de Fulton, que nem é tão grande – fico imaginando que incrível seria ter uma feira semanal debaixo do Minhocão, em São Paulo – com carros de um lado, água do outro e, a poucos metros, um prédio imponente prontinho para ser ocupado. É óbvio que LaValva vivia paquerando o lugar, largado às traças e à mercê de eventuais moradores de rua e traficantes. Óbvio também que o sucesso da feirinha Smorgasburg em Williamsburg (Brooklyn) lhe dava alento de ver seu projeto crescer e transformar a região. Seu plano era ambicioso: fazer Nova York ter, finalmente, um mercado como La Boquería de Barcelona, concentrado em um prédio histórico, com impacto sensível em toda a zona portuária. Em tempo: não existe em Nova York um mercado municipal central indoor. É inacreditável.

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A feira é uma das coisas mais cheias de vida que vi por aqui. Quando me perguntam se já fui ao Dean & DeLuca, aos Whole Foods, ao Eataly de Mario Batali, ao Smorgasburg, desanimo. Ninguém sabe do New Amsterdam Market. Ninguém caminha até lá – no máximo, passam pelo Marco Zero das Torres Gêmeas e sobem, evitando o extremo sul da ilha, que vem sendo bastante castigado desde os atentados. O furacão Sandy, em 2012, danificou prédios, depósitos e casas com a enxurrada de lixo e água salgada que invadiu a ilha.

Uma manifestação contra a venda do terreno para a HHC estava marcada para terça-feira, mas foi cancelada devido ao mau tempo. Sobre a briga, Mark Bittman escreveu recentemente no Times. Os apoiadores pedem que as pessoas assinem a petição  que adia a negociação com o HHC, solicitando à prefeitura uma licença de cinco anos para que o New Amsterdam Market prove sua viabilidade econômica e apresente um plano de ocupação e modelo de negócio para a reabertura do antigo mercado de peixes.

New Amsterdam Market é uma feira sem a frescura foodie, sem a excessiva pretensão que, de repente, contaminou toda a humanidade quando se fala em comida. É autoconsciente sem fazer proselitismo. É frequentada por famílias, idosos e crianças – sempre um bom sinal. Mas LaValva está sendo vencido pela dinâmica urbana: primeiro o poder público abandona; quando o crime organizado não toma conta, as pessoas se mobilizam – em geral com comércio ilegal, comida, feira; a área chama a atenção de alguém e lá vem uma incorporadora construir hotel-prédio-shopping-estacionamento. É assim que funciona. As exceções recentes são a High Line – belíssima recuperação dos antigos trilhos elevados da cidade – e algumas partes do Brooklyn, que já virou modelo de exportação de estilo e urbanidade. Vai ser pena se LaValva perder essa chance.

A fé, o amor e os tolos puros

Perdão aos puristas (os puros não se incomodarão) pelo aluvião que vi formar recente nestas margens. O que ficou está todo misturado.

Foi um beliscão e uma sacudida que levei.

O beliscão foi durante a sessão de Searching for Sugar Man, ganhador do Oscar de melhor documentário. Um beliscão moral de “se enxerga, mira a vida deste sujeito, segura o mimimi”. Dias depois veio a sacudida, provocada por uma centena de vozes. Pegaram-me pelos dois antebraços e balançaram, balançaram, cinco horas e meia rodando no ar, a canção em círculos, de modo que ainda estou sob vertigem, atacou a labirintite. Foi Parsifal, de Wagner.

As duas experiências se irmanaram, hoje falam a mesma língua dentro da minha cabeça. 

Parsifal, o herói da ópera, é um tolo ingênuo que só abraça sua “missão” depois de ter feito o mais difícil – a maioria das pessoas elege a fama que quer ter (a missão) para depois caçar heroísmos. Homens brincando de deuses. No Parsifal de Wagner, misto de lenda arturiana com narrativa cristã, os homens ansiavam pelo cumprimento da profecia (“a salvação virá pelas mãos de um tolo puro”), mas Parsifal, o tolo que não compreendeu o sentido da eucaristia,  precisou viver longe dela para senti-la e vê-la cumprida em si mesmo. Redenção, por fim.

O compositor Sixto Rodriguez, tema do documentário, é o tolo puro em sua arte. Tolo por acreditar demasiado nos outros, ou por duvidar do talento que tinha – ou, quem sabe, inteligente o bastante para cair fora antes de perder os melhores anos da vida (e em certo sentido, também a pureza) ensaiando o sucesso sem sair do lugar. Músicos lhe diziam que seria grande, os produtores apostaram, a Motown o lançou em 1970, mas a profecia do fracasso cantada já no segundo disco (“porque perdi o emprego duas semanas antes do Natal”) chegou rápida demais. Incrível que os entrevistados nunca chegam a mencionar o fato de ele ser filho de mexicanos como motivo da rejeição. Um chicano à esquerda de todo o movimento banquinho-e-violão não era exatamente o retrato da contracultura branca norte-americana.

Rodriguez foi do nada ao lugar algum na música. Esquecido em Detroit, lugar de decadência, teve de esperar quarenta anos para que a profecia da fé – a de que, se alguém acreditar, a montanha se lançará ao mar –  se cumprisse. Enquanto ralava como pedreiro, ajudante geral, carregador de geladeira, suas músicas eram cantadas pelas ruas da África do Sul e seus discos, vendidos aos montes. Ele nunca soube que era tido como um dos cantores norte-americanos mais famosos, em outro continente. Nunca recebeu um centavo de direitos autorais. Agora tudo está acontecendo muito rápido – seu show estreia em Nova York dia 7 de abril e ele segue em turnê. Fãs e mídia querem lhe devolver as décadas perdidas. Fosse o mundo justo, haveria um lugar menos duro onde Rodriguez pudesse encostar a cabeça à noite, daqui por diante, mas nem isso é certo. Nada é.

Mas há música, talvez a maior das redenções.

Há um sentido espiritual na música de Rodriguez, como há também, em toneladas acachapantes, em Parsifal. Na montagem incomum, em cartaz no Met (que em 1903 foi o primeiro teatro a encená-la fora da Alemanha, a despeito das proibições de Wagner), não havia ninguém com roupa de cavaleiro, nem florestas, e a paisagem era pós-apocalíptica. Imagens do planeta projetadas ao fundo me fizeram lembrar de Melancolia, de Lars von Trier; as mulheres-zumbis do segundo ato pareciam Samara, de O Chamado. Até a cortina vermelha foi abolida – em seu lugar, um tecido translúcido refletia sombras da plateia e ia revelando os cantores durante o primeiro ato (ainda me arrepia). Eles caminhavam lentos, iam tirando os sapatos, os paletós, preparando-se para a celebração da ceia. Palmas para o diretor François Girard. Sem espalhafatos, o simbolismo ficou ainda mais forte. Os dois primeiros atos foram qualquer coisa de sobrenatural. A música, uma vez mais, redime a carência de tradição. Redime tudo.

Contagens 2

Pensata coletiva sobre a “reportagem” anterior:
(pensata quasi una psicografia)

Nate Thayer

O cara fez certo em identificar a editora? Depende. Quantos anos você tem? Está empregado? Jornalista também é situacionista.
Explico.
Thayer filia-se à legião heroica do jornalismo, pós-Todos os Homens do Presidente, que ainda acredita na grande causa da investigação. Dar nome e sobrenome é seu papel de repórter. Ele pensa com a cabeça dos antigos, e em seu site, pode fazer o que bem entende. Não tem editor mesmo para cortar. Blé.
A editora, por sua vez, não deve ter 30 anos. É cria do jornalismo online, que se presta a esse papel triste de negociar o passe dos outros e fazer 15 coisas ao mesmo tempo.
Na troca de mensagens:
Ele, beirando a polianice, se ofende. Com razão. Considera-se insultado, do alto dos seus 25 anos de repórter. Como se subisse num palanque, discursa sobre a “deterioração de nossa profissão e a dificuldade de jornalistas sérios em ganhar a vida através de seu trabalho”.
Ela, beirando a peleguice, se justifica. Sem culpa. Considera-se ligeiramente superior, do alto do cargo que ocupa, na nova ordem mundial das coisas. Como se fosse relações públicas, inadvertida, fala da audiência do site – “temos 13 milhões de visitantes por mês” – e que “alguns jornalistas usam a plataforma como forma de ganhar exposição, com motivações as mais diversas. Não é algo positivo para todos e é perfeitamente razoável declinar”.

A editora parece mesmo ter comido bola ao pedir para Nate reescrever a história (exigindo dele mais trabalho). Podia ter simplesmente negociado uma republicação com o NK News. O fato de a revista Atlantic ter, anos atrás, contratado Nate por US$ 125.000 para escrever seis artigos ao ano, sem exigir cessão de direitos autorais, pegou mal, mas não explica quase nada. O jornalismo impresso é uma coisa; o que ocorre no online é outra. Felix Salmon, colunista de tecnologia da Reuters.com, explicou com números e de modo interessante, neste artigo, a situação (e os salários) do jornalismo online nos Estados Unidos. Não parece tão desastroso arrumar emprego num portal daqui: US$ 60 mil ao ano. Tá ruim mas tá bom (?).

Os Estados Unidos vivem um segundo (ou terceiro) momento na crise geral: há contratações aqui e acolá. Mas ninguém mais pensa a longo prazo e sim, os salários desabaram. A nova geração quase não aceita contrato de exclusividade. Escreve para vários lugares, entra em redação, sai, escreve um livro, abre um bar, fecha, volta como copy. Há muito bom jornalismo em produção, vale lembrar. Há caminhos. E há também o portão de saída.

Os últimos dois centavos, em discurso indireto livre e fluxo de consciência, new journalism style:

– não me sai da cabeça a cena de Lucky Guy em que Mike McAlary se recusa a furar greve no Daily News, em 1991. Ele já era o cara mais bem pago do jornal, havia finalmente chegado ao posto de colunista – ah, o ego… – e mesmo assim, entra em paralisação junto dos colegas. Mike McAlary, Nate Thayer, Olga Khazan representam 30 anos de uma profissão que se desgastou na roda dentada do século 20. Filha bastarda da literatura, arrogante, orgulhosa. Acima do mundano. O quarto poder. Neutralidade e imparcialidade que prescindem de sindicatos, de pensamento coletivo. Tão importante na formação da modernidade quanto os primeiros apertadores de parafuso da Ford.  Um trabalho tão intelectual, tão elevado, que ninguém sabe direito quanto vale. Balzac já sabia disso, trezentos anos atrás.

Agora sim descanso minha valise.

Contagens

A DR interna chegou de forma incontornável (porém controlável). A ponto de me obrigar a usar a primeira pessoa do discurso, de novo.

Amigos e colegas de trabalho querem saber para onde vou, se vou mesmo, que país é esse que me espera, o que devo e quero fazer. Pedem a conta, a contabilidade toda, sete meses em planilha de Excel. Mal sentamos para comer, nem bem pedimos as bebidas no bar, e as perguntas começam.

Não me incomodo. Digo apenas que vou continuar tentando. Escrever não é só escrever para jornal ou revista. Não é preciso ter um emprego fixo para isso. Ouvir e contar histórias é pulsão muito diferente, outra coisa. Já não estamos cansados de saber? Prefiro acreditar que, se for preciso, vou saber dar outro rumo. E quero evitar o delírio meio ingênuo de dizer “eu só sei escrever”, ou “estou velha demais para fazer outra coisa”. Tudo isso é verdade, mas é tolice também. As verdades mudam.

Os amigos balançam a cabeça, em comum acordo. Ouço suas reclamações, os salários mirrados. A pressão. O custo de vida que não para de subir. Jovens de 20 e tantos anos com absurda bagagem cultural, desmamados bem cedo, vivendo no sufoco nesta Nova York que existe para justificar a grande ideia de América. Um exército de estagiários não-remunerados. Em fevereiro, durante um congresso de escritores e jornalistas de comida (é verdade!), ouvi dos principais publishers que hoje o dinheiro gordo tem de ir para a área de tecnologia, para manter a coisa funcionando. Redações de sites, start-ups e revistas de sucesso se mantêm com a seguinte proporção: dois funcionários contratados (todos de arte ou tecnologia) para cada OITO escravos trabalhando das 10 às 18h, almoçando na frente do computador. Já formados. Mestres. Doutores. Gente com ideias fervilhantes, criatividade, grandes projetos, vivendo uma longa jornada de pindaíba, o ’22-22-22′ sobre o qual o Times publicou reportagem dias atrás. Tá fácil não.

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No modo autoanálise e debaixo de neve, fui assistir à estreia de Tom Hanks na Broadway. Lucky Guy, com texto de Nora Ephron (falecida em 2012, autora de Harry e Sally e Julie e Julia), foi inspirada na vida de Mike McAlary, repórter de polícia ganhador do Pulitzer no final da década de 1990 e morto de câncer logo depois. McAlary era da geração de ouro do New York Post, aquela das redações barulhentas e enfumaçadas e das ruas tomadas pelo crack. Em cena, Hanks (McAlary) imita os gestos de um cocainômano e finge cheirar uma carreira de pó enquanto digita uma de suas colunas. Depois do longo expediente, ia encher a cara no bar.

E vem a cena do salário. Disputado pelos tabloides da cidade, McAlary recebe oferta de US$ 1 milhão ao ano para trabalhar no concorrente Daily News. A plateia, entusiasmada com o ritmo do espetáculo e com a presença de Hanks no palco, reagiu com um sincero ‘ooooh’ ao ouvir o valor da proposta. Em Nova York, cidade que tem fetiche por bloquinho e caneta, dava até para ficar rico escrevendo sobre polícia. Agora não dá nem para pagar o aluguel.

Americanos e não-americanos estão em igual corda-bamba, que não sei se tem hífen mas devia ter (respeito gráfico ao sentido da coisa). O clima no geral não anda bom. Nem para quem abraçou o emprego formal de redação, nem para os independentes. Na última segunda-feira, o jornalista investigativo Nate Thayer publicou uma troca de mensagens entre ele e uma das editoras da revista The Atlantic, negociando um frila. Teve 100 mil acessos em dois dias. Leiam aqui e meditem – se é que precisamos pensar mais sobre o assunto. Ao invés de dizer que a editora novata encarregada da negociação havia se equivocado ao pedir texto para tão gabaritado profissional, a assessoria de imprensa da revista respondeu, simplesmente, que “o valor dos frilas varia” – varia tanto que pode chegar a zero dólar. Imagine pedir um texto de 1200 palavras, de graça, para o cara que entrevistou Pol Pot na selva do Camboja. I rest my case.